Joaquim Moncks

PASSAGEIROS DO PASSO E A ARCA DE VIVER

13 Fevereiro 2018 08:59:28

Fragmentos da crônica que bem retrata a cultura passo-torrense, em 2004

Estação 04:

O ANDAR DOS DIAS, PASSÁRGADA E A CASCA DE NOZ   

Temos de ir a Laguna nesta Semana Santa: o sogro sofrerá uma operação cirúrgica daqui a alguns dias. Logo após estaremos de volta a Porto Alegre, a provinciana capital dos rio-grandenses. Ando com saudades dela, de sua vestimenta de outono, dos esquálidos plátanos perdendo suas amarelecidas folhas. Do vento gélido batendo no rosto, quando dos volteios às margens do Guaíba, ônibus arfando com pressa de chegar, e pessoas procurando proteção nos centros comerciais às primeiras invernias.   

Não tem saído da cachola nenhum poema, apesar deste curso de observação de ambientes e os seus duendes, mas estamos grávidos de energia. Como podem notar, estou ávido de conversas e de novidades. O que tenho por aqui é parco e reduzido quando imagino e sonho a Capital, com os seus atrativos e bulícios.   

Neste passo de viver tudo anda devagar tal uma lesma nos jardins tristes do inverno. Um pouco mais ágil, talvez, mas não há como deixar de comparar o rio da vida ao andarilhar dos cágados e tartarugas escondendo-se nos juncos e nos baixios da Lagoa Morta. Só tratam de se mexer quando um gaviãozinho caramujeiro mergulha em direção a eles. No entanto, ao menos, no mundo dos fatos, a vizinhança não se preocupa muito em pensar o dia seguinte. A gente do lugar sabe que tudo vem a seu tempo: os ventos carregando nuvens claras ou escuras num céu de brigadeiro ou de chumbo; o bordado das estrelas, o sol e a chuva que carrega os girinos nos aluviões de sarjeta montados nos ramos de agrião.   Nestas bandas o dia se constrói paulatinamente, e neste andar a despacito, ideias pululam dentro da cuca. Ah! Se eu tivesse um bom dinheiro construiria um hotel com proposta turística internacional, um resort de cinco andares pertinho da foz do Mampituba, só pra mostrar ao mundo como o Passo de Torres é lindo, com um povo bom e pacato, além de sua esplêndida formosura topográfica composta de terras, dunas de areia, pedras, o rio, o Atlântico Sul e os ventos com que Netuno fustiga a restinga, os bichos e as gentes, especialmente no outono e na invernia.   

Desta sorte teríamos emprego especialmente para os jovens de nossa aldeia de bem-querenças. Eu daria ao hotel o nome de Passárgada, que quer dizer, na língua dos persas, um país de delícias, um paraíso em vida, segundo um professor de literatura, ao explicar o famoso poema de Manuel Bandeira "Vou-me embora pra Pasárgada", publicado no livro "Libertinagem", de 1930. Esse nome de Pasárgada (com somente um 'esse'), que significa "campo dos persas", suscitou na minha imaginação uma paisagem fabulosa, diz Bandeira, o poeta-autor.

E neste lugarejo de Deus a gente do lugar falando sem constrangimento: vamos lá conhecer o hotel da "Bazarca", que é como eles chamam o bairro deste Passo (e seus passageiros), que começa depois do Rio Morto, que me dizem ser um criatório de ostras, tainhas e camarões. E já começo a lamber os beiços e salivar um bom gole de vinho. Mas, será mesmo que o plano diretor municipal permitiria um edifício tão alto fazendo sombra aos faróis Norte e Sul? Bem, acho que o prefeito pressionaria os vereadores no sentido da aprovação de um projeto desta amplitude, porque os "alforjes da Prefa" ficariam bem gordinhos e daria até pra melhorar a rede viária municipal: colocar asfalto na Beira-Rio e paralelepípedos ou bloquetos de cimento em algumas ruas de nosso bairro, que, por sinal, têm um montão de panelas de boca pra cima...   Pena que eu seja somente um homem de loucas ideias e não um rico empresário. Bem, sonhar nada custa ao bolso. Imagino que uma cidade recém-emancipada necessitará de gente que pense o seu futuro.   A única livraria local amealha em suas "burras" os meus gastos com mais de quinhentas fotocópias, montagens várias de noticiários novos e antigos. Canetas, folhas, marca-textos, disquetes, cartuchos de impressão. Longas cartas e mensagens com destinatário certo que necessitam arquivo. Ainda não sei bem usar o computador e a conexão via telefone é instável, daí que o virtual e o papel convivem necessariamente...   

A Casa do Poeta de Torres e a do Passo começam a quebrar o ovo e aglutina-se a comunidade em torno de sua comissão de instalação. Dia destes terá a sua primeira reunião pra valer. Talvez venha a eleger diretoria provisória logo. Vai depender do curso dos ventos. Com tanto céu e mar, decerto haverá alguns poetas para olhar o horizonte muito além da Ilha dos Lobos.   Porque os ventos sempre trarão as marés pra dentro de casa. O comportamento dos homens é similar aos do vento. Talvez por isso os barcos que adentram ao mar tenham os seus casarios: aquelas casinholas em torno da cabine de comando que protegem a tripulação. Numa casca de noz sobre ondas revoltas, o marujo do leme é o caroço da amêndoa, quebrada a casca, vai-se a polpa. Os ventos e as cartas são os únicos passageiros que trespassam. Os primeiros agem sobre o corpo e os casarios. As segundas sobre a mente e o coração. De todos sobram estragos.   

Afinal, tudo é apenas passagem. Tal as gentes, o vento e os barcos, no Passo de Torres, quase ao sul do mundo, bem perto da ilha dos lobos, também passadiços. Estes mesmos que vão e vêm, quase todos os anos, em suas migrações ao sabor dos ventos e das correntes marinhas, para sobreviver e procriar a espécie. Ao cronista cabe apenas o registro do lugar, dos homens, dos bichos e suas passagens frente ao tempo de comer, viver, sonhar e, eventualmente, semear para o implacável futuro.






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